O Silêncio dos Homens por Cássio Waki

A casca se rompe na pia de mármore. A mão direita despeja o ovo na esquerda. Por entre os dedos, a clara escorre sobre um prato. A palma em concha suporta a gema até colocá-la intacta numa tigela de cobre.O homem sai pela porta da cozinha e joga a casca numa vasilha. Ele se surpreende por ter acordado ainda no meio da noite sem que ninguém o avisasse. Na hora, apenas abriu os olhos, levantou-se e foi para cozinha.

Com a ponta de um garfo de alpaca, ele fura a película da gema e aciona movimentos elípticos mudando do amarelo escuro ao claro. A tigela repousa na pia e com uma das mãos quebra um pedaço de açúcar bruto, despeja leite fresco e uma fração de cerveja preta. O garfo torna a mistura homogênea coberta por camada de bolhas. O homem verte a tigela de cobre e derrama um pouco do remédio pelas bordas do copo de vidro.

Em três passos, desloca-se da cozinha ao quarto dos filhos. Move a porta entreaberta e procura nos beliches. A mão esquerda, coberta com fina camada da clara de ovo, adere à testa do menino e constata o corpo febril.

O pai se acomoda na beira da cama e suspende o filho pelo dorso. Com a outra mão, aproxima um naco de pão de milho aos lábios do menino. Sem forças, ele morde e pressiona o pedaço com a língua contra o céu da boca. A saliva dissolve a massa e vai pela garganta. Ele repete o processo até constatar o copo de remédio à sua frente.

O filho se apoia no corpo do pai, que acompanha o movimento dos goles. Toma todo o remédio e adormece. Ele devolve o filho ao travesseiro e, antes de sair do quarto, passa a mão sobre o cobertor: recolhe as migalhas do pão de milho.

O pai não volta à cozinha. Deixa o copo de vidro no seu criado-mudo. Joga as migalhas no chão, batendo uma mão contra outra, e deita. Ao pender o corpo para o meio da cama, sente a falta da esposa.

Boleros por Amilton Pinheiro

Senti que ela se encaminhava para o seu “lugar-pai”, como eu batizara o local, entre o sofá, a vitrola e uma mesinha de canto, que minha mãe, todo final de tarde vazia, gostava de ficar. Nos dedos de sua mão direita, a já conhecida garrafa de conhaque, e em cima daquela desgastada mesinha, o maço de cigarros e um cinzeiro aguardavam seu pranto que chegaria, quando no transcorrer da noite, o conhaque reinasse na sua alma em desalinho. Ela se sentou no sofá, com seu corpo desacompanhado, e olhou-me sem expressão comunicante. Eu, pressentindo o que viria logo mais, tremi pelo desaconchego de mais uma noite dormida sem ela. Deixei-me ficar. E fiquei sentado na porta da sala que levava ao corredor, onde ficava o nosso quarto; dela com meu pai e o meu. Lugares de ausência. Ela não imagina que nas noites em claro, seu sono pesado pelo álcool me deixava mais longe dela. Na vitrola, o prato girava o LP de Núbia Lafayette. Escutei o tão conhecido trecho da música Fracasso. E naquele exato momento, lágrimas sem choro percorreram o rosto enrugado pela espera. Fracasso por compreender que devo esquecer/Fracasso porque já sei que não esquecerei/Fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal/Por te querer tanto bem e me fazer tanto mal.... E também, naquele exato momento, meu olhar ficava turvo  de lágrimas incontidas, que chegavam sem consentimento. Levava meu corpo para mais próximo do corredor, na intenção de não ser notado. Ela acendia um cigarro e cantarolava o final da música. As sombras se avizinhavam por entre o corredor e a sala e nossa casa era mais uma vez envolvida pelo começo da noite que rendia o entardecer e pelos “Boleros para meu pai”, como eu passei a designar aqueles dias lembrados. Outra música espreitava os pensamentos vagos da minha mãe, que agora não mais cantarolava. Levantei-me e fui olhar a janela do quarto deles, que dava para a rua. Poucas pessoas se atreviam a passear naquele início de noite, sem vento, sem lua,  sem orientação. Pensamentos confusos, naqueles dias de ausência do pai. Escutei que ela havia se levantado, corri para a porta do seu quarto, com medo dela me ver ali. O corredor estava escuro e para minha alegria, ela ligou a lâmpada da sala, o que não era hábito. Alegria virou êxtase, pelo meu pensamento indagador “Hoje ela não ficará bêbada. Vamos poder conversar, e, talvez ela me deixe dormir ao seu lado”. Pensamento apressado e desavisado, porque ela acabara de apagar a lâmpada da sala. Fui para a cozinha beber um copo d’água e abri a porta da geladeira, mais pela necessidade da claridade que ela ia proporcionar do que pelo copo d´água, que minha boca não pedia. Ela aumentou o som da vitrola e meus ouvidos foram invadidos pelo início da música “Lama”, de todas as músicas de Núbia, a minha preferida Se quiser fumar eu fumo/Se quiser beber eu bebo/Não interessa a ninguém/Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama/Viveu na lama também…

A secretária entrou na sala de aula e disse que ia distribuir as carteiras de estudante. Era o meu primeiro documento. O registro de nascimento não contava e minha mãe nunca quis mostrá-lo. Ela foi chamando os alunos por ordem alfabética, e entregava a carteira a cada um. Meu coração disparou quando ela chamou meu nome. Peguei a carteira e quando ia olhá-la, um dos colegas a puxou da minha mão. Ele observou atentamente minha carteira e começou a rir. Logo foi mostrá-la aos seus amiguinhos, que eu chamava de comparsas. Todos começaram a rir. Escutei alguém do grupo dizer: “O pai dele se chama XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX”. Ele falou tantas vezes a letra x, que durante anos aquela repetição ecoou na minha cabeça, como uma espécie de sinfonia destoante. Arranquei a carteira de sua mão tão ligeiramente, que surpreso não teve como deter-me. Olhei-a atentamente e vi que no lugar do nome do meu pai, havia aquela interminável carreira da letra x.