Entrevista curta com Evandro Affonso Ferreira

1- Na abertura de uma de suas oficinas você disse “não tenho nenhum pai do
Kafka para dar a vocês”. Lembra disso?
Sim: isso significa que as angústias e as inquietudes e os desesperos
primum móbile da criação literária, tudo isso, não é possível ser
repassado: está dentro de cada um.

2- Você já me contou que depois de ter lido o Júlio Cortazar percebeu que
também poderia escrever histórias pequenas e que daquela experiência nasceu
o “Grogotó” – o livro de mini-contos, incensado pela crítica, que marcou sua
estreia na literatura. Como foi isso?
Exatamente isso: fui publicitário quase vinte anos, redator. Dominava
o texto curto. Na propaganda somos mestres do multum in parvo do
epigrama. Um dia, lendo Cortazar, descobri o texto curto na
literatura. Pensei: acho que isso consigo fazer. Nasceu meu primeiro
livro de minicontos: Grogotó.

3- Depois do “Grogotó” você decidiu mudar de gênero literário, passou do
conto ao romance, e daí nasceu “Araã”. Por que esta mudança?
O miniconto virou modo nacional. Sempre detestei modismo. Vivo na
contra-mão dos acontecimentos. Quanto mais o mundo fica moderno mais
volto os olhos para os pré-socráticos.

4- Quais são as suas principais influências literárias?
Cornelio Pena, Bruno Schulz, Hermann Broch, Graciliano Ramos, Lobo Antunes

5- Você já leu Joyce?
Li as últimas trinta e poucas páginas sem ponto sem vírgula nem nada:
achei deslumbrante.

6- Você teve muitas dificuldades para publicar seus primeiros livros?
Muita – apesar de ter tido um padrinho maravilhoso: José Paulo Paes.
Fomos entre aspas rejeitados por várias editoras. Umas cinco. Até que
finalmente uma editora do Rio topou – a Topbooks.

7- Será que existe alguma outra pessoa além de você que não goste de cinema?
Acho que não. Poucas vezes que vou ao cinema, saio com a sensação de quem acabou de ler uma orelha de livro.

8- Qual o papel do escritor?
A4.

9- Você diz que sua literatura se divide em antes e depois do “Minha
mãe…”. Por que?
Antes me preocupava com a vida da palavra; agora, com a morte do homem.

10- Você tem alguma coisa a dizer aos jovens escritores?
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