Inscrições Abertas – 2013

Oficina Grogotó foi criada em homenagem a Evandro Affonso Ferreira, autor de vários livros, entre eles “Grogotó”. Ela é coordenada e ministrada por Marcia Tiburi e convidados. Entre eles e, em especial, o próprio Evandro Affonso Ferreira.

A Grogotó destina-se aos que amam literatura, já escrevem ou gostariam de escrever. Parte da ideia de que escrever é um ato não institucional e totalmente fora das convenções. É diálogo com a cultura, com o tempo, a vida e a complexidade social.

Sem exigir conhecimentos prévios no campo da literatura ou experiência com escrita criativa, a Grogotó pretende partilhar com seus participantes conhecimentos teóricos e práticos sobre o trabalho de ler e escrever como prática estética que é também experiência existencial.

Escritores significativos da tradição ou do cenário contemporâneo entram na Oficina Grogotó como objeto de estudo por meio dos quais a multiplicidade de vozes e estilos literários se faz presente, mas também como impulsionadores da invenção literária.

A cada encontro serão propostos exercícios que promovam uma abertura de perspectivas criativas. Tais exercícios visam a consciência dos participantes acerca de seus próprios recursos para o desenvolvimento de singulares potências criativas.

A intenção, por fim, é estimular, através da leitura e da escrita, a intuição literária e o encontro com a palavra viva de cada participante.

A Grogotó é dividida em 2 semestres de 4 módulos (de março a junho e de agosto a dezembro) sempre às terças-feiras no bairro de Higienópolis.

Início das aulas 5 de março

Programação do primeiro semestre:

5-12-19-26 – Março

LER PARA ESCREVER: A PORTA DE ENTRADA DA CRIAÇÃO LITERÁRIA

O que é uma narrativa: discurso, diálogo, devaneio

Questões essenciais do texto literário: a prosa, a poesia e o silêncio no texto.

Produção Textual

2-9-16-23-30 – Abril

O QUÊ?!

O Estranhamento como condição indispensável do texto literário.

O Estranhamento em Tolstói.

O Estranhamento em Brecht e Freud.

Produção textual

7-14-21-28 – Maio

COMO?! 

O Estilo como conquista.

Exercícios de Estilo (Raymond Queneau e a OULIPO)

Como ser…

Evandro Affonso Ferreira;

Quem você quiser;

Você mesmo;

Produção textual

1-8-15-22- Junho

Módulo de preparação do texto final e publicação aqui no blog. 

Coordenadores dos trabalhos

MARCIA TIBURI é graduada em filosofia e artes e mestre e doutora em filosofia. É autora de vários livros de filosofia entre eles “Uma outra história da razão” (Ed. Unisinos, 2003), “Diálogo sobre o Corpo” (Escritos, 2004), “Filosofia Cinza – a melancolia e o corpo nas dobras da escrita” (Escritos, 2004), “Metamorfoses do Conceito” (Ed. UFRGS, 2005) e “Filosofia em Comum – para ler-junto” (Record, 2008).  Publicou os romances: “Magnólia” (Bertrand Brasil, 2005), que foi finalista do Jabuti, “A Mulher de Costas” (Bertrand Brasil, 2006) e O Manto (Record, 2009) da série Trilogia Íntima. E em 2012 publicou “Era meu esse rosto” (Record, 2012). É professora do programa de pós-graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Mackenzie e colunista da Revista Cult.

EVANDRO AFFONSO FERREIRA publicou 6 livros: Grogotó (Topbooks); Araã! (Hedra); Erefuê, Zaratempô e Catrâmbias (Editora 34) e de Minha mãe se matou sem dizer adeus (Record, 2010) ganhador do Prêmio da APCA de 2010. Em 2012 publicou “O mendigo que sabia de cor os adágios de Erasmo de Rotterdam”(Record, 2012). Foi finalista dos prêmios Portugal Telecom, Jabuti e Prêmio BRAVO. Participou de uma coletânea de contistas brasileiros em Portugal – Editora Cotovia organizada por Alcir Pécora. Como livreiro criou os Sebos Sagarana, Avalovara e a Livraria Boa Vista.

Mais informações (preços, horários, endereço) com:

Jaci Palma jacipalma@yahoo.com.br

Marcia Tiburi contato@marciatiburi.com.br

BOA NOTÍCIA DA SEMANA:

Ficamos muito felizes.

Vejam aí a ‘mención’ que o nosso Evandro Affonso Ferreira recebeu no Casa de las Américas:

http://www.casadelasamericas.org/premios/literario/2013/premios.html

Pérolas – Preciosidades Literárias.

A Oficina Grogotó preparou uma lista com dez títulos. São pequenas joias, especiarias trazidas do Brasil e do mundo. Não deixem de ler.

1 – Grogotó – Evandro Affonso Ferreira.

2 – Sanatório – Bruno Schulz.

3 – Os passos em volta – Herberto Helder.

4 – Rútilos – Hilda Hilst.

5 – A casa das belas adormecidas – Yasunari Kawabata.

6 – Novelas – Samuel Beckett.

7 – O túnel – Ernesto Sábato.

8 – O náufrago – Thomas Bernhard.

9 – A morte de Ivan Ilitch – Léon Tolstói

10 – Memórias do subsolo – Fiódor Dostoiévski.

Entrevista curta com Evandro Affonso Ferreira

1- Na abertura de uma de suas oficinas você disse “não tenho nenhum pai do
Kafka para dar a vocês”. Lembra disso?
Sim: isso significa que as angústias e as inquietudes e os desesperos
primum móbile da criação literária, tudo isso, não é possível ser
repassado: está dentro de cada um.

2- Você já me contou que depois de ter lido o Júlio Cortazar percebeu que
também poderia escrever histórias pequenas e que daquela experiência nasceu
o “Grogotó” – o livro de mini-contos, incensado pela crítica, que marcou sua
estreia na literatura. Como foi isso?
Exatamente isso: fui publicitário quase vinte anos, redator. Dominava
o texto curto. Na propaganda somos mestres do multum in parvo do
epigrama. Um dia, lendo Cortazar, descobri o texto curto na
literatura. Pensei: acho que isso consigo fazer. Nasceu meu primeiro
livro de minicontos: Grogotó.

3- Depois do “Grogotó” você decidiu mudar de gênero literário, passou do
conto ao romance, e daí nasceu “Araã”. Por que esta mudança?
O miniconto virou modo nacional. Sempre detestei modismo. Vivo na
contra-mão dos acontecimentos. Quanto mais o mundo fica moderno mais
volto os olhos para os pré-socráticos.

4- Quais são as suas principais influências literárias?
Cornelio Pena, Bruno Schulz, Hermann Broch, Graciliano Ramos, Lobo Antunes

5- Você já leu Joyce?
Li as últimas trinta e poucas páginas sem ponto sem vírgula nem nada:
achei deslumbrante.

6- Você teve muitas dificuldades para publicar seus primeiros livros?
Muita – apesar de ter tido um padrinho maravilhoso: José Paulo Paes.
Fomos entre aspas rejeitados por várias editoras. Umas cinco. Até que
finalmente uma editora do Rio topou – a Topbooks.

7- Será que existe alguma outra pessoa além de você que não goste de cinema?
Acho que não. Poucas vezes que vou ao cinema, saio com a sensação de quem acabou de ler uma orelha de livro.

8- Qual o papel do escritor?
A4.

9- Você diz que sua literatura se divide em antes e depois do “Minha
mãe…”. Por que?
Antes me preocupava com a vida da palavra; agora, com a morte do homem.

10- Você tem alguma coisa a dizer aos jovens escritores?

O Silêncio dos Homens por Cássio Waki

A casca se rompe na pia de mármore. A mão direita despeja o ovo na esquerda. Por entre os dedos, a clara escorre sobre um prato. A palma em concha suporta a gema até colocá-la intacta numa tigela de cobre.O homem sai pela porta da cozinha e joga a casca numa vasilha. Ele se surpreende por ter acordado ainda no meio da noite sem que ninguém o avisasse. Na hora, apenas abriu os olhos, levantou-se e foi para cozinha.

Com a ponta de um garfo de alpaca, ele fura a película da gema e aciona movimentos elípticos mudando do amarelo escuro ao claro. A tigela repousa na pia e com uma das mãos quebra um pedaço de açúcar bruto, despeja leite fresco e uma fração de cerveja preta. O garfo torna a mistura homogênea coberta por camada de bolhas. O homem verte a tigela de cobre e derrama um pouco do remédio pelas bordas do copo de vidro.

Em três passos, desloca-se da cozinha ao quarto dos filhos. Move a porta entreaberta e procura nos beliches. A mão esquerda, coberta com fina camada da clara de ovo, adere à testa do menino e constata o corpo febril.

O pai se acomoda na beira da cama e suspende o filho pelo dorso. Com a outra mão, aproxima um naco de pão de milho aos lábios do menino. Sem forças, ele morde e pressiona o pedaço com a língua contra o céu da boca. A saliva dissolve a massa e vai pela garganta. Ele repete o processo até constatar o copo de remédio à sua frente.

O filho se apoia no corpo do pai, que acompanha o movimento dos goles. Toma todo o remédio e adormece. Ele devolve o filho ao travesseiro e, antes de sair do quarto, passa a mão sobre o cobertor: recolhe as migalhas do pão de milho.

O pai não volta à cozinha. Deixa o copo de vidro no seu criado-mudo. Joga as migalhas no chão, batendo uma mão contra outra, e deita. Ao pender o corpo para o meio da cama, sente a falta da esposa.

Boleros por Amilton Pinheiro

Senti que ela se encaminhava para o seu “lugar-pai”, como eu batizara o local, entre o sofá, a vitrola e uma mesinha de canto, que minha mãe, todo final de tarde vazia, gostava de ficar. Nos dedos de sua mão direita, a já conhecida garrafa de conhaque, e em cima daquela desgastada mesinha, o maço de cigarros e um cinzeiro aguardavam seu pranto que chegaria, quando no transcorrer da noite, o conhaque reinasse na sua alma em desalinho. Ela se sentou no sofá, com seu corpo desacompanhado, e olhou-me sem expressão comunicante. Eu, pressentindo o que viria logo mais, tremi pelo desaconchego de mais uma noite dormida sem ela. Deixei-me ficar. E fiquei sentado na porta da sala que levava ao corredor, onde ficava o nosso quarto; dela com meu pai e o meu. Lugares de ausência. Ela não imagina que nas noites em claro, seu sono pesado pelo álcool me deixava mais longe dela. Na vitrola, o prato girava o LP de Núbia Lafayette. Escutei o tão conhecido trecho da música Fracasso. E naquele exato momento, lágrimas sem choro percorreram o rosto enrugado pela espera. Fracasso por compreender que devo esquecer/Fracasso porque já sei que não esquecerei/Fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal/Por te querer tanto bem e me fazer tanto mal.... E também, naquele exato momento, meu olhar ficava turvo  de lágrimas incontidas, que chegavam sem consentimento. Levava meu corpo para mais próximo do corredor, na intenção de não ser notado. Ela acendia um cigarro e cantarolava o final da música. As sombras se avizinhavam por entre o corredor e a sala e nossa casa era mais uma vez envolvida pelo começo da noite que rendia o entardecer e pelos “Boleros para meu pai”, como eu passei a designar aqueles dias lembrados. Outra música espreitava os pensamentos vagos da minha mãe, que agora não mais cantarolava. Levantei-me e fui olhar a janela do quarto deles, que dava para a rua. Poucas pessoas se atreviam a passear naquele início de noite, sem vento, sem lua,  sem orientação. Pensamentos confusos, naqueles dias de ausência do pai. Escutei que ela havia se levantado, corri para a porta do seu quarto, com medo dela me ver ali. O corredor estava escuro e para minha alegria, ela ligou a lâmpada da sala, o que não era hábito. Alegria virou êxtase, pelo meu pensamento indagador “Hoje ela não ficará bêbada. Vamos poder conversar, e, talvez ela me deixe dormir ao seu lado”. Pensamento apressado e desavisado, porque ela acabara de apagar a lâmpada da sala. Fui para a cozinha beber um copo d’água e abri a porta da geladeira, mais pela necessidade da claridade que ela ia proporcionar do que pelo copo d´água, que minha boca não pedia. Ela aumentou o som da vitrola e meus ouvidos foram invadidos pelo início da música “Lama”, de todas as músicas de Núbia, a minha preferida Se quiser fumar eu fumo/Se quiser beber eu bebo/Não interessa a ninguém/Se o meu passado foi lama/Hoje quem me difama/Viveu na lama também…

A secretária entrou na sala de aula e disse que ia distribuir as carteiras de estudante. Era o meu primeiro documento. O registro de nascimento não contava e minha mãe nunca quis mostrá-lo. Ela foi chamando os alunos por ordem alfabética, e entregava a carteira a cada um. Meu coração disparou quando ela chamou meu nome. Peguei a carteira e quando ia olhá-la, um dos colegas a puxou da minha mão. Ele observou atentamente minha carteira e começou a rir. Logo foi mostrá-la aos seus amiguinhos, que eu chamava de comparsas. Todos começaram a rir. Escutei alguém do grupo dizer: “O pai dele se chama XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX”. Ele falou tantas vezes a letra x, que durante anos aquela repetição ecoou na minha cabeça, como uma espécie de sinfonia destoante. Arranquei a carteira de sua mão tão ligeiramente, que surpreso não teve como deter-me. Olhei-a atentamente e vi que no lugar do nome do meu pai, havia aquela interminável carreira da letra x.