Jen Roberts
O trio de cientistas brasileiros que conquistou o primeiro prêmio Nobel para o país e foi condecorado pela presidente na semana passada vive um clima de guerra tribal. E não é para menos. Depois que Ednéia de Oliveira, 31, a Déia, insinuou que teria havido falsificação dos dados de muitas pesquisas e que ela seria vítima de chantagens dos dois professores titulares do Departamento de Filosofia da USP que conduziram as pesquisas, o clima entre o grupo é de bordoadas. Em Oslo, o porta-voz da Academia de Ciências já declarou que a instituição deverá abrir uma investigação para apurar as denúncias.
Jorge Elias Francisco, 53, o Jef, e Ubiratan Petrônio, 47, o Capitão, recusam-se a comentar as denúncias de Déia. Em nota conjunta, os dois informaram à imprensa que “um grande, profundo e prolongado trabalho científico não pode ser melindrado por problemas afetivos da jovem cientista”. Assessores dos dois insinuaram que Déia sofre de transtorno bipolar e tem sempre fortes crises de TPM.
Especula-se que a revista Veja da próxima semana trará uma investigação que aponta falhas nas pesquisas dos cientistas, mas sobretudo, revelará uma incrível suruba intelectual, científica e sexual liderada e protagonizada não só por Déia, Jef e Capitão, mas por muitos professores dos departamentos que, de algum modo, participaram do estudo: Medicina, Filosofia, Antropologia, História e, claro, Artes, todos da maior universidade da América Latina.
Ser ou não ser botocudo, eis a questão
Os três cientistas protagonizaram um feito inédito. A Academia de Ciências da Suécia concedeu-lhes o Nobel por uma pesquisa antropológica e histórica. Assim, o prêmio destinado à Medicina foi concedido ao estudo “Vida, morte e ressurreição – a disseminação presente do DNA botocudo”, um trabalho que envolveu também o apoio de historiadores e médicos que pesquisaram o sangue de todas as etnias brasileiras.
Se você imagina que somos uma salada de frutas racial, acertou. O Brasil reúne mais de 350 caracteres genéticos indígenas e outros 200 de origem indoeuropéia. O mérito do estudo do trio brasileiro foi ter descoberto que há uma raiz genética comum e disseminada em todos os grupos étnicos brasileiros atuais, o gene botocudo.
Os índios botocudos foram assim chamados porque utilizavam botoques, ou seja, adereços de madeira redondos que aplicavam principalmente na orelha e nos lábios, prolongando estas extremidades. O efeito, meramente estético como provaram os cientistas, e hoje adotado por muitos jovens em todo o mundo –e atenção, isto não é mera coincidência–provocava os colonizadores portugueses que exterminaram as tribos botocudas quando elas se opuseram à ocupação de suas terras.
Ao cruzar o DNA deste caldeirão genético brasileiro, os cientistas descobriram que há uma sequencia de nucleotídeos oriunda do gene botocudo presente em todas as demais raças, fenômeno que não se repete com nenhum outro gene. O estudo conclui que, de alguma forma, os genes botocudos miscigenaram-se em todas as raças, inclusive naquelas cuja imigração somente ocorreria anos depois do extermínio dos indígenas. Um mistério.
Uma das conclusões indica que o espírito botocudo é responsável por duas características presentes na vida diária do brasileiro, o desprezo pelas boas maneiras sociais, dissimulado por uma cortesia e manifestações carinhosas íntimas, como o beijo e o forte abraço, e a reação violenta ao debate intelectual, sempre impregnado do rechaço pessoal e da disputa de vaidades. O estudo constatou que este espírito violento e de falsa fraternidade está presente especialmente na genética de políticos de todas as matizes, sejam parlamentares ou meros líderes de classes e associações, cujos genes carregam nucleotídeos botocudos idênticos aos primordiais.
A conexão milanesa
Outra surpresa da pesquisa foi ter encontrado nos restos de comida de uma das tribos estudadas fragmentos do que um dia foi um bife a milanesa. O fóssil deste pedaço de carne incendiou a cozinha da incipiente gastronomia brasileira, provocando discussões sobre os ingredientes do bife indígena.
Como sabemos, os índios não conheciam o pão e, muito menos, a farinha de rosca. O bife botocudo era recoberto por uma camada de mandioca e trigo integral, uma mistura surpreendente que foi facilmente reproduzida pelos cientistas e resultou num bife com idêntico sabor ao milanesa.
Contestada pela associação italiana de cozinha e hoje prestes a ser repudiada pelo parlamento, a descoberta salvou a cabeça do primeiro-ministro da Itália que sobreviveu a mais um voto de desconfiança, graças à união em torno do privilegio da origem controlada. Capitão, ou Ubiratan Petrônio, o cientista descendente de italianos, remeteu carta ao primeiro ministro insinuando suspeitas na origem deste bife fossilizado. Sempre enigmático, Capitão desta vez foi singelo: – Ora, se o bife é milanês, donde será o fóssil?
Uma das acusações de Déia, que deverá ser a sua próxima linha de investigação, envolve a influência genética italiana na violência por que são conhecidos os botocudos. Segundo ela, os indígenas eram originariamente mansos, tendo alterado o seu comportamento após a presença da nau Beatrice, utilizada na quinta viagem de Cristovão Colombo.
Esta menina está maluca. Colombo nunca conseguiu fazer uma quinta viagem. Esta fonte histórica é segura, disse o professor Jef, desprezando a tese de Déia. A seu favor, a única mulher do grupo, apresenta fragmentos da embarcação e de trajes europeus similares ao da corte milanesa. Há, de fato, um período obscuro na vida de Colombo, que navegou ao mundo que descobrira quatro vezes, mas nunca teria feito uma quinta viagem ou chegado ao Brasil. Será que conseguiu? E melhor, será que deixou descendentes botocudos-milaneses entre nós? Seriam os botocudos violentos por origem europeia?
Advertência sueca
No Brasil, o fenômeno botocudo atingiu as redes sociais. Mais e mais jovens se identificam com o espírito indígena e nos aplicadores já não há mais hora para implante dos botoques. Nas novelas da televisão, a expressão “botocudo” sempre utilizada depreciativamente para as pessoas grossas e agressivas, agora envolve a presença de charme e estilo.
A Real Academia Sueca de Ciências já abriu investigação sobre a pesquisa laureada, afirmando que agirá com prudência e rigor na apuração. O Nobel poderá ser cassado, se a comissão entender que houve falhas no estudo dos brasileiros. Por aqui, aguardaremos os próximos capítulos. A agressividade botocuda, ou milanesa, deverá estar presente nos debates entre Déia, Capitão, Jef e toda a comunidade científica brasileira. Há quem preveja um novo extermínio. Há quem assegure que tudo termina em abraços emocionados, falsos tapinhas nas costas, dois beijinhos e bife a milanesa.