Mistério Botocudo


Jen Roberts

 

O trio de cientistas brasileiros que conquistou o primeiro prêmio Nobel para o país e foi condecorado pela presidente na semana passada vive um clima de guerra tribal. E não é para menos. Depois que Ednéia de Oliveira, 31, a Déia, insinuou que teria havido falsificação dos dados de muitas pesquisas e que ela seria vítima de chantagens dos dois professores titulares do Departamento de Filosofia da USP que conduziram as pesquisas, o clima entre o grupo é de bordoadas. Em Oslo, o porta-voz da Academia de Ciências já declarou que a instituição deverá abrir uma investigação para apurar as denúncias.

Jorge Elias Francisco, 53, o Jef, e Ubiratan Petrônio, 47, o Capitão, recusam-se a comentar as denúncias de Déia. Em nota conjunta, os dois informaram à imprensa que “um grande, profundo e prolongado trabalho científico não pode ser melindrado por problemas afetivos da jovem cientista”. Assessores dos dois insinuaram que Déia sofre de transtorno bipolar e tem sempre fortes crises de TPM.

Especula-se que a revista Veja da próxima semana trará uma investigação que aponta falhas nas pesquisas dos cientistas, mas sobretudo, revelará uma incrível suruba intelectual, científica e sexual liderada e protagonizada não só por Déia, Jef e Capitão, mas por muitos professores dos departamentos que, de algum modo, participaram do estudo: Medicina, Filosofia, Antropologia, História e, claro, Artes, todos da maior universidade da América Latina.

Ser ou não ser botocudo, eis a questão

Os três cientistas protagonizaram um feito inédito. A Academia de Ciências da Suécia concedeu-lhes o Nobel por uma pesquisa antropológica e histórica. Assim, o prêmio destinado à Medicina foi concedido ao estudo “Vida, morte e ressurreição – a disseminação presente do DNA botocudo”, um trabalho que envolveu também o apoio de historiadores e médicos que pesquisaram o sangue de todas as etnias brasileiras.

Se você imagina que somos uma salada de frutas racial, acertou. O Brasil reúne mais de 350 caracteres genéticos indígenas e outros 200 de origem indoeuropéia. O mérito do estudo do trio brasileiro foi ter descoberto que há uma raiz genética comum e disseminada em todos os grupos étnicos brasileiros atuais, o gene botocudo.

Os índios botocudos foram assim chamados porque utilizavam botoques, ou seja, adereços de madeira redondos que aplicavam principalmente na orelha e nos lábios, prolongando estas extremidades. O efeito, meramente estético como provaram os cientistas, e hoje adotado por muitos jovens em todo o mundo –e atenção, isto não é mera coincidência–provocava os colonizadores portugueses que exterminaram as tribos botocudas quando elas se opuseram à ocupação de suas terras.

Ao cruzar o DNA deste caldeirão genético brasileiro, os cientistas descobriram que há uma sequencia de nucleotídeos oriunda do gene botocudo presente em todas as demais raças, fenômeno que não se repete com nenhum outro gene. O estudo conclui que, de alguma forma, os genes botocudos miscigenaram-se em todas as raças, inclusive naquelas cuja imigração somente ocorreria anos depois do extermínio dos indígenas. Um mistério.

Uma das conclusões indica que o espírito botocudo é responsável por duas características presentes na vida diária do brasileiro, o desprezo pelas boas maneiras sociais, dissimulado por uma cortesia e manifestações carinhosas íntimas, como o beijo e o forte abraço, e a reação violenta ao debate intelectual, sempre impregnado do rechaço pessoal e da disputa de vaidades. O estudo constatou que este espírito violento e de falsa fraternidade está presente especialmente na genética de políticos de todas as matizes, sejam parlamentares ou meros líderes de classes e associações, cujos genes carregam nucleotídeos botocudos idênticos aos primordiais.

A conexão milanesa

Outra surpresa da pesquisa foi ter encontrado nos restos de comida de uma das tribos estudadas fragmentos do que um dia foi um bife a milanesa. O fóssil deste pedaço de carne incendiou a cozinha da incipiente gastronomia brasileira, provocando discussões sobre os ingredientes do bife indígena.

Como sabemos, os índios não conheciam o pão e, muito menos, a farinha de rosca. O bife botocudo era recoberto por uma camada de mandioca e trigo integral, uma mistura surpreendente que foi facilmente reproduzida pelos cientistas e resultou num bife com idêntico sabor ao milanesa.

Contestada pela associação italiana de cozinha e hoje prestes a ser repudiada pelo parlamento, a descoberta salvou a cabeça do primeiro-ministro da Itália que sobreviveu a mais um voto de desconfiança, graças à união em torno do privilegio da origem controlada. Capitão, ou Ubiratan Petrônio, o cientista descendente de italianos, remeteu carta ao primeiro ministro insinuando suspeitas na origem deste bife fossilizado. Sempre enigmático, Capitão desta vez foi singelo: – Ora, se o bife é milanês, donde será o fóssil?

Uma das acusações de Déia, que deverá ser a sua próxima linha de investigação, envolve a influência genética italiana na violência por que são conhecidos os botocudos. Segundo ela, os indígenas eram originariamente mansos, tendo alterado o seu comportamento após a presença da nau Beatrice, utilizada na quinta viagem de Cristovão Colombo.

Esta menina está maluca. Colombo nunca conseguiu fazer uma quinta viagem. Esta fonte histórica é segura, disse o professor Jef, desprezando a tese de Déia. A seu favor, a única mulher do grupo, apresenta fragmentos da embarcação e de trajes europeus similares ao da corte milanesa. Há, de fato, um período obscuro na vida de Colombo, que navegou ao mundo que descobrira quatro vezes, mas nunca teria feito uma quinta viagem ou chegado ao Brasil. Será que conseguiu? E melhor, será que deixou descendentes botocudos-milaneses entre nós? Seriam os botocudos violentos por origem europeia?

Advertência sueca

No Brasil, o fenômeno botocudo atingiu as redes sociais. Mais e mais jovens se identificam com o espírito indígena e nos aplicadores já não há mais hora para implante dos botoques. Nas novelas da televisão, a expressão “botocudo” sempre utilizada depreciativamente para as pessoas grossas e agressivas, agora envolve a presença de charme e estilo.

A Real Academia Sueca de Ciências já abriu investigação sobre a pesquisa laureada, afirmando que agirá com prudência e rigor na apuração. O Nobel poderá ser cassado, se a comissão entender que houve falhas no estudo dos brasileiros. Por aqui, aguardaremos os próximos capítulos. A agressividade botocuda, ou milanesa, deverá estar presente nos debates entre Déia, Capitão, Jef e toda a comunidade científica brasileira. Há quem preveja um novo extermínio. Há quem assegure que tudo termina em abraços emocionados, falsos tapinhas nas costas, dois beijinhos e bife a milanesa.

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Fé – Campos Forte

 

Sou um morto realizado. Conquistei tudo, convenci a todos, driblei as leis, os políticos, a mídia, consegui um legado de seguidores de dar inveja ao Papa, só não enganei esta doença misteriosa que consumiu meus órgãos e me encerrou a vida.

Fundei a igreja há 25 anos, li e reli a bíblia, apesar de ser ateu. Acho que os ateus compreendem muito melhor a bíblia, talvez por não terem as amarras das religiões. Fui capaz de convencer a quem quisesse da existência de Deus, embora ele não passe para mim de uma mera palavra.

Não posso aqui ser mal-agradecido. Justiça seja feita: só juntei toda esta fortuna por ajuda de Deus e Jesus Cristo e não me foi cobrado nada, nem o celibato. Sei que ele gosta muito mais dos ateus, mas nem todos, apenas os que realmente não acreditam nele e sabem fazer uso do seu nome. Ouço meus pastores conversando, falando do cortejo que pelo visto reunirá um número recorde de seguidores. Sim, de dar inveja ao Papa.

Hipócritas. Atribuem a mim a cura dos seus males, o pagamento das suas dívidas, a solução dos seus amores perdidos, a libertação dos seus corpos entregues ao demônio, quando o verdadeiro demônio está na sua mediocridade.

Amigos, não os fiz, nunca tive amigos. Casei com uma mulher linda, jovem, chama-se Isabela e me dedicou fidelidade absoluta, mais ainda que meus discípulos. Dizem que o único sentimento capaz de garantir total fidelidade é o amor, discordo. Para mim é a submissão. No caso dos meus devotos a submissão se traduz em outra palavra: Fé. Temem a ira divina ou a falta de sua benção e como me apoderei desta palavra, os abençoo. E os condeno à devoção eterna.

O pastor Marcos chega ao velório (posso ver tudo mesmo de olhos fechados, caprichos da morte), ele é o mais próximo que tenho de um amigo, acompanhou minha doença e confortou Isabela a todo momento. Amigo? Acho que a definição mais acertada é um cão, um cão fiel e sempre próximo.

Isabela entra toda de negro, ar carregado, contrastando com seus olhos azuis. Aqueles olhos de mar, de ressaca que me atraíram e atormentaram até eu poder obtê-los, domá-los, torná-los do mar bravio num lago dócil e tranquilo. Ela se aproxima, para, inclina-se, passa seus dedos quentes sobre meu corpo gelado, suas lágrimas caem em meu paletó.

O pastor-cão também se aproxima e por um instante… talvez meus olhos mortos me preguem uma peça, mas noto as mãos dele tocarem as de Isabela, um gesto rápido, segundos, talvez. Isabela inclina-se ainda mais sobre meu corpo, encosta seu rosto próximo aos meus ouvidos e sussurra. Sussura num tom tão baixo e profundo como se fosse capaz de saber a frequência exata dos mortos:

- Nunca fui sua.

 

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Engraçada é a Convicção – Maiara Gouveia

I.  Exposição do morto às vistas de quem o amava

“Era um inexplicável, um monstro.” SOFIA (Em: ASSIS, Joaquim Maria Machado de.)

Não vale a pena da galhofa retomar a ideia fixa do emplasto. Fica o vexame, cerzido por dentro das calças, pra honrar as miudezas do meu caráter. Que os píncaros da Glória te sirvam de consolo. No mínimo, porque me custaram os olhos da cara.

Sob a tampa da tumba – meu único horizonte – copio exemplares de A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Triste Imberbe. (Digo imberbe só pra botar as barbas de molho). E lamento a sorte dos leitores, era uma vez e felizes pra sempre enganados. Inclusive

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Preencha a lacuna com a frase ambiguíssima sobre os fins e os meios. Utilize o verbo no subjuntivo. Siga as instruções contidas no guia prático do espírito de época.

Espírito de autor ou autor com presença de espírito são coisas improváveis. Pra evitar o disse-que-disse, confesso à queima-roupa: O REI ESTÁ NU. Mas não me deixe sozinho nesta corda bamba. Em troca, te dou ironias de ilustre finado. O riso mais fino está aqui.

Já disse que não presto?

“A ironia recobre a ferida” (PAZ, Octavio)

Meus parabéns, tua fineza permitiu notar as sutilezas do meu tino. Contrato os teus serviços. Se te deixar a ver navios, talvez se encontre mareado com a minha falta de modéstia – veja bem – tão avessa ao sublime enganador. Garanto as baixezas garantidas pelo hábito. Mas não se zangue tão depressa, ó criatura amante, cheia de beijos e arrulhos, ó pombinha das minhas migalhas. Li por aí:

“Outros amantes espalham gemidos pela casa./São todos comuns em seus homicídios e meias-verdades.” (GOUVEIA, Maiara: 2009)

 

Aqui, no fundo, no fundo, te chamo de testemunha. Com teus olhos que o aterro há de comer. Entre a estima dos graves e o querer bem dos frívolos, arrumo leitores em lances de escada. (Sublinhe ambiguidades). Também os mortos têm pressa de evitar a rejeição. Diga-me: o excremento alheio tem a mesma textura do nosso? Faltou-me o tempo de checar. Mas dos podres morais tenho amostras grátis, entre a fileira de vermes e o crânio esburacado. Há sempre quem sinta alívio nesses campos da miséria comum.

E eu, que não sou miserável? – A pergunta se põe no ar, enigmática – Devo cortar os pulsos com Machado?

Maravilha, pensamentozinhos melodramáticos. Hilariante. – vem acrescentar o hipopótamo, muitíssimo longe, e gargalha, “diante da fatalidade das coisas”. Ah, pobres mortais os Stanislaviskos. Menos por isto:

 

“Crie seu método. Não seja dependente, um escravo. Faça somente algo que você possa construir. Mas observe a tradição da ruptura, eu imploro.” Stanislavsky

 

Do que pelo resto. Ui, romantismos imprestáveis.

Entre o hipopótamo e a gargalhada, Só vejo a briga de cães. Os cães ladram, e a caravana passa. Na DES-graça, a mesma cena é uma rinha de galos. Nuvem escura barra a fluência: ouve-se o vulto de transeuntes pios, travestidos de gaivota, com chapéus em lemniscata. No ar, minha pena cortante arranca as cabeças: arena ao molho pardo. Alguém senta num saco de risadas. Concentrado no estilo, limpo as piruetas, desenho cabriolas. Anoto: a galinha cacareja mais alto ao vencedor da corrida. Parece uma aposta com cavalos. Dispenso a sela e a montaria. Meu número é fora do páreo. Ah, sim, distribuem batatas.

Fim do delírio.

Fica difícil descrever-te, ó amantíssimo dependurado nesta corda. O tapume de madeira é um cisco, uma trave. Sendo o buraco o lugar de onde enxergo, com meus olhos de ressaca *: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Complete com o imperativo categórico.

* Ref. Olhos de ressaca: Quer sorver o interlocutor pra dentro da caixa.

Mas primeiro tire o argueiro da tua vista, ou como podereis me abrir a porta? Agora veja. Temos um acordo. Revelei a nudez da realeza e, por falta de bons modos, insinuei que os mortos, sobretudo ilustres, apalpam teu corpo pelado, peladíssimo, com o velho truque da língua afiada. E tuas pestanas, longilíneas, se eriçam de contentamento, enquanto as pupilas, danadinhas, bebem bem minhas palavras. Brindemos. Tim tim por tim tim. (____________________________________________________________)

Ó criatura insaciável.

Não te basta o branco da ossada, com manchas escuras de cábula a rábula?  Ó surdo-mudo contra a superfície opaca da tampa, sem poder se afogar na própria beleza ou fealdade.

Confesso: SOU EU, SOU EU – a única parte interessante do diálogo. O resto – joguei fora, inclusive o punho que apoiou a grafia das memórias A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Triste Imberbe.

Até considerei tirar as barbas do molho e desenterrar um capítulo inteiro**. Porém, dadas as circunstâncias fúnebres do meu estado, deixo a parte que me cabe: a tampa, como possível leito às tuas vidas cansadas.

Devolvo à miséria o seu legado.

♠♦♣♥

** Ref. Capítulo Inteiro: II. O Cão

Nada a fazer com a morte que me resta.

O vidro, espatifado há século e meio, pende no ar, miragem transparente, metafísica ante o vazio feito duplo na face sem face: (Cf. caveira). Entorna o caldo escuro, ou fio espesso da melancolia. E a queda interrompida mela a tampa, visgo de tinta, arremedo de sangue.

Ó amante volúvel, quase entregue a tabula rasa***. Mal sacudias o teu lenço de viúva e retornei à pauta, mais morto do que nunca, trazendo ares sinistros de poeta. Note: venho pregando peças contra o tapume. Como dantes Sofia decorava a casa.

Tens Sofia nos olhos. Cada qual faz do martelo o que lhe cabe.

*** Ref. Tabula Rasa: Cf. Aristóteles apud Locke apud Behaviorismo.

Fiquei à espera dos teus suspiros e deixei-me distrair. É fato: Entre os riscos de A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Triste Imberbe, poupei, descaradamente, os cuidados com a decomposição – obra em si mesma**** com valor testamentário. Noutras palavras: manifestação, em juízo******, do meu último desejo.

**** Ref. Obra em si mesma: pretensão de coisa alheia ao tempo-espaço, oximoro máximo do brevíssimo prefácio ao romance que, em vida, garantiu-me a celebridade*****.

***** Ref. Celebridade: figura pública cujo pum tem ares de importância e não fede nem cheira, em virtude da categoria virtual [locus do sujeito sujeitado à palavra].

****** Ref. Juízo: a. diz-se do parecer de autoridade acerca de contenda levada adiante e mediada por terceiros. b. Haveria o derradeiro. (Cf. Novo Testamento → projeções ao futuro do pretérito). c. Faltou-me na ocasião da ideia fixa. d. O resto se deduz desta tabula, onde não se mede rasuras (sic) ou profundidades.

Não se preocupe em contabilizar demoras na tua brevidade, pretendo me alongar só o bastante pra estalar os ossos. Aliás, sem os despojos do anseio, sequer notaria isto: (

), vibrátil na extensão da corda, dando azo à promessa de som. Por esse elo musical entre a cova e a tampa, fez-se horizonte inteiro.

Ó par de olhos brilhantes, ó duas estrelas de cinco pontas sempre à espreita, às bordas do meu escuro impenetrável. Logo me convenci de que a voz – como o fantasma ******* que atravessa as portas – poderia ser lançada ao tempo, de novo e de novo.

Ref. Fantasma: (citar ou não citar, eis a questão).

Desafiei a memória e puxei aí o tom ocre do meu sotaque fin de siècle. Dos fascículos zombeteiros às madames, ou dos capítulos velados aos intelectuais à brasileira, desdobrei, neste empenho, articulações estranhas, às avessas da caçoleta, fazendo-me cócegas no esticado das canelas. Tudo a amalgamar-se no sistema intrincado entremeando uivos à respiração, com stacattos e legatos na mesma peça, cosidos habilmente ao torto da pauta.

Morto nenhum, a essas funduras desacontecidas, espera tais surpresas. O bambo da corda, vê-se bem, dividiu a miséria em dois imprevistos.

Projétil balístico, a voz do morto******* mira além-tampa (ou aporia), como parte basilar dos cuidados com a decomposição. Sabe-se LÁ se retorno, por vias de antítese, ao motivo do emplasto. EU → TU, amantíssimo voyeur, não sabemos. Sabemos, sim, que a estadia nesta terceira margem do Letes põe em quaisquer ambições outra aura, já esquiva do compromisso com o apetite de Humanitas********, tendo a derrota como carro-chefe.

******* Ref. A Voz do Morto: tornou-se canção popular na voz doutro ilustre zeloso, também desinteressado de vãs filosofias, inviáveis fora da língua alemã.

******** Ref. Humanitas: há um latido, parágrafos à frente, e alude à teoria do lobo do homem. Lobo, sabemos, é o nome dado ao Cínico pelo mesmo juízo que faz de um folião de capa o imperador solar. (Cf. nota explicativa ref. a Juízo).

Essa menção ao apetite me faz pensar no que seria dos mortos se ressentissem a necessidade. Posto que doença esteja para a morte como o cão (aquele que ladra e não morde) para o devorador de batatas, teríamos aí a revelação segura da hipocondria póstuma. Intrigado com o mesmo problema, acudiria à página o saudoso Quincas, trazendo uma pulga atrás da orelha em pé.

Nunca houve comunicação entre MIM e uns mortos sociáveis, em razão da aporia, de madeira de lei – e o lado de cá se encheu de nostalgia ao aceder à lembrança o fiel amigo.

Contudo, nem só de especulação vive o lobo, mas de toda palavra saída desta boca de fumo de Morfeu.

O CAIXOTE. _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _

Inscreva aí O Manto, “Ornitomance das Berenices”, santo sudário da Loucura ciente de si. Teia de aracnídeas utilíssima ao propósito da decomposição. Aliás: ∞____________________________(…)____________________________∞

∞____________________________(…)____________________________∞

Ó Sofia. Se, em princípio(s), fui distante e caçoei de olhares dúbios, foram ciúmes da vivacidade. SUPERFÍCIE DE PRATA invadida por luzes de daguerreótipo. Sou o contrário. Vazio feito duplo na face sem face.

Ó Cruzeiro, ó Maria Benedita nas alturas. Tua alma de pombinha à porta sem eira nem beira é prova de índole pronta a perdoar. Ou EU, triste migalha em tua Via Láctea, pareço _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Procure a “legência” em LLANSOL, Maria Gabriela.

A voz bate na tampa e retorna. Bate na tampa e retorna. Fanha, engraçada, despida de si, aliás _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ (E o “legente” no Ardente Texto Joshua)

­_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ duas pontas do mesmo embaraço.

Bate e retorna. Bate e retorna. Bate e retorna. E o fará a cada vez que ouvir o andar da carruagem: Três Marias nesta corda bamba.

E o cão do Quincas deixou-me com esta:

“Castas estrelas! é assim que lhes chama Otelo, o terrível, e Tristram Shandy, o jovial.” (ASSIS, Joaquim Maria Machado de.)

 

Sigo com o rabo entre as pernas.

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Deitado – Wilson Krette Júnior

 

Ninguém veio. Já é tarde.

Fechado aqui há horas esperando por ela que sempre é muito ocupada, eu sei; ele, que não falta numa missa; o outro, que nunca atrasou para uma das muitas reuniões que tivemos, mesmo com os olhos mornos de ressaca.

A mãe que contava a rodos as alegrias pelos diplomas na parede não chegou até agora também; nem o pai – que nunca veio.

Mas, onde estão os meus óculos?

Quero ver melhor se eles todos não estão mesmo aqui. Se não ficaram do lado de fora tomando coragem para ver o que não viram toda a vida.

Só eu é que me vejo. Que me escuto. Do resto, nada mais sei. Nada mais posso.

É verdade que a solidão sempre me foi minha boa companhia, mas não agora. Não aqui. Eu quero o outro: ao menos um cão de rua abandonado. Alguém.

Está quase na hora. E o padre sozinho se aproxima. Fala duas ou três palavras, olha dos lados e sai.

Ninguém veio.

Ninguém vê.

Ninguém escuta.

Agora, o escuro.

O vão.

E o que está por vir, quando ninguém vem…

 

 

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Breve Consideração – Rachel Louise

Dizer que sinto aperto no coração… Oras, em vida esta frase nunca passou pelos meus lábios para elucidar uma verdade. Eu até diria que certa gripe me abalou, mas a atual circunstância não permite a conveniente justificativa. Admito que estou desapontado por ter deixado a existência e talvez, um pouco enternecido pela dama de meia idade que ainda esforça-se para acreditar em minha partida. Creiam-me senhores: a dama que segura as lágrimas de espanto devidas à irreparável perda foi das mais belas em seus tempos áureos. É contemplando o meu cadáver que o seu semblante assume o tom nostálgico que observo agora.

Enfim, morri.

Cheguei ao cume de minha existência aos cinquenta e sete anos, após uma vida digna de ser narrada por Suetônio. Mereço ocupar o mausoléu de minha família. Fui progressista, defendi a democracia nas rodas de conversa, financiei as artes e as boas letras.  Não me casei, não por falta de pretendentes, mas por certa convicção e, devido à grande profundidade dos princípios que a motivaram, não me convém explicá-la agora. Constato, todavia, relembrando estes pormenores, que meus pensamentos continuam ligeiros como o eram em vida.

E por falar em vida, a senhora em meu velório continua a olhar-me incrédula. Aliás o seu nome é Dulce. Tivemos um romance já na maturidade. Ela, claro, era casada e tinha o seu primogênito. Eu não fiz caso deste pequeno detalhe. Aprendi com as lições políticas de meu pai que não é de bom tom esperar que os outros abracem as nossas convicções. Dado o meu relacionamento superficial com o marido ministro dela, não me senti muito a vontade em apresentar-lhe o meu modo de ver as relações humanas. Preservei-os casados. Dulce não se pronunciou e saímos os três felizes.

Verdade é que Dulce se pronunciava pouco. Não que isto fosse defeito: considerando as mulheres de seu tempo, o silêncio lhe era uma virtude. Seu forte eram os olhos. Chamavam a atenção suas pestanas negras e pupilas envolventes. Certa vez, num instante de distração me pus a admirá-los desavisadamente. O resultado foi catastrófico. Fui envolvido por aquele par castanho de não sei o quê. A sensação era a de… não sei descrevê-la! Faz-me lembrar o mar agitado, que vem e vai com força bruta. Ressaca das marés. Olhos de ressaca! Ora, isso daria um belo poema. Eu, que não fui poeta em vida, deixo a inspiração àqueles que desejam elucidar as suas belezas e volto a minha atenção para o enigma da eternidade.

Acredito que muitos me invejariam por saber o que sei estando do lado de cá da existência. Pobres mortais! Soubessem o que é a vida pós morte… Com toda a solenidade necessária, afirmo-vos que a eternidade é como um cão: saúda a nossa chegada alegre e saltitante e depois esquece-nos num canto para dedicar-se a outra coisa qualquer. Posto que estou cá revelando os meus mistérios, creio não fazer mal em ter entregue um pequenino, mas importante segredo. Os Céus me agradecerão pela quota reduzida de iludidos que aqui chegará e eu, poderei desfrutar, mesmo em morte, a glória trazida pelas boas intenções. Acene com a cabeça, leitor.

 

 

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Um dia de trabalho – Campos Forte

              

No quarto o barulho crepitante do ventilador de teto que corta o calor e espalha lembranças. O homem acorda e observa num canto escuro próximo à porta uma pequena aranha tecendo a teia, tão ágil e habilidosa em cada detalhe como se escrevesse fio a fio a história da humanidade.

Ele espreguiça-se, resmunga, enfim levanta-se, caminha até a janela e a abre, permitindo que os raios do sol entrem e rasguem a penumbra expondo as manchas de mofo e as frestas nas paredes, assim como suas rugas, seu olhar abatido e os fios prateados da barba por fazer: “Hoje é um belo dia para me aposentar” – pensa.

A aranha segue obstinada, tecendo, pintando seu quadro da vida com suas patas-pincéis numa concentração cirúrgica, unindo velocidade e paciência de tal forma que a eternidade parece conter-se num piscar de olhos. Nas paredes o cheiro forte do mofo e as frestas abertas devem lhe parecer portais para os abismos umbráticos.

Ele lava o rosto, percebe a barba a fazer e ignora. Tosse, cospe um punhado de sangue que desce na pia girando com a água cano a baixo.

Um dia já quis ser médico. Contentou-se com o curso de enfermagem. “Somos o que podemos ser”, divaga. Senta-se na cama e pega uma maleta com várias seringas, algumas ampolas e outros materiais. Veste-se e sai em direção a pequena lanchonete naquela cidade afastada onde o tempo parou. Senta-se à mesa, pede um café e abre o jornal que comprou na banca ali perto.

Em frente à sua mesa um sujeito de terno cinza e gravata azul senta-se e pede seu desjejum. A pequena lanchonete começa a receber mais clientes: uma mulher com criança de colo, um idoso, um casal que parece não ser daquela cidade. A criança começa a chorar, um grito estridente, inquietante, mas parece não incomodar em nada a concentração do homem com o seu jornal.

O sujeito de gravata levanta-se, vai ao toalete. Minutos depois o homem dobra o jornal, termina o café e se dirige também ao toalete. Encontra o sujeito de terno a lavar-se na pia e resolve também lavar o rosto.

- Muito calor – diz o sujeito.

Ele sorri e move afirmativamente a cabeça. Pede licença com um gesto do braço apontando a toalha de papel à direita do homem de terno e num gesto rápido tapa-lhe a boca, pega a seringa do bolso e a aplica no pescoço do homem de terno que se debate e depois desvanece lentamente.

Ele tira a seringa do pescoço da vítima, guarda-a no bolso, lava-se, pega o celular, tira fotos do corpo e sai tranquilamente do toalete. Deixa o dinheiro na mesa e volta para o quartinho imundo do hotel, anexa as fotos e digita uma mensagem:

Tudo pronto. Aguardo resto do depósito na conta de sempre – O enfermeiro”.

Tosse, desta vez com mais intensidade, pega um punhado de sangue que lhe suja a camisa branca.

“Bom dia para me aposentar”, reflete.

Lava-se, faz a mala e abandona o quartinho.

No canto escuro do quarto a aranha termina a teia e nela um pequeno escorpião se debate balançando a cauda mortífera. Seu veneno é inútil agora.

 

 

 

 

 

 


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Sem Título – Victor Chaves

Victor Chaves

 

Acho que as pessoas gostam da vida, ora fazem da febre tifóide, do impaludismo, da varíola e da febre amarela endemias inextirpáveis.

Estou morto e como tal não temo a morte, mas na lembrança da vida, no aludir das paredes e no esfarelar de barro há um gemido.

No soluçar dessas velhas tradições, fizeram do dia em que morri uma festa – hino claro de picaretas olhando para o morto em clamor incessante e rítmico – despejar de lágrimas secas.

Velha figura canina a perseguir o soberano dono dos restos de comida – tornando-me osso e pó, brincadeira para cão sem dono.

Aonde vai perdida a moça que disse – te amo? Incapaz de olhar-me. Essa lenda toda da nossa incurável doença acabou-se. Já é tempo de recolher-se ao gavetão onde se guardam chavões inúteis. Estou morto, você ainda vive, lamento.

Olhos de ressaca como lembrança das páginas amarelas, porém, já se foi o tempo em acolhíamos um ao outro pelo olhar. Agora meus olhos foram colados, minha boca costurada, pele de lagartixa dentro do melhor terno – o tempo embaixo da terra.

Garantia para homem de respeito retribuir – te amo: a morte, a morte.

 

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